“Esta carta é para você, amor”.

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Hoje, vasculhando uns cantos do teu apartamento, achei uma carta tua. Escrita à mão e endereçada a mim. Daquelas que você escrevia e nunca me enviava. Porque, segundo você, homens não estão liberados para chorar, fazer as unhas na manicure e escrever cartas de amor. Sempre com um timbre meio aristocrático. O olhar poético e o abraço confortável.

“Esta carta é para você, amor”.

Amor.

O título. Queria poder te encontrar agora pra te mostrar que eu sei chorar de emoção e para pedir perdão por dizer-te que eu odiava que me declamassem poemas. Tá sem data. A carta. Mas pelas palavras macias, sensíveis e românticas. Você deve ter escrito naquela noite que fizemos amor pela ultima vez. Forte isso.

Ultima vez.

Eu me lembro de todas as ultimas vezes que eu passei contigo. Lembro-me do teu ultimo sorriso. Do teu ultimo beijo e do teu ultimo piscar de olhos. Mas com você tudo que me aconteceu foi único. Falar de “últimos” é estancar a minha ferida eterna. É lembrar que amanhã, eu vou fazer um café forte e você não estará aqui pra me fazer maneirar no açúcar. Amanhã, eu vou querer acordar como se estivesse louca e você não estará aqui para me conter, ou reclamar da minha agitação individual que nunca caberá no mundo. Cê não vai está aqui quando eu decidir, por fim, a trocar o teto de lugar. Arranhar o piso. Destruir os móveis. Rasgar as nossas coisas, botar fogo no prédio inteiro começando pelo meu coração. Ou, somente tomar coragem pra me afundar na banheira junto com o meu secador de cabelos ligado nos 220 w. Porque ficar aqui e aguentar tudo isso é muito pra mim. Desculpa. Eu sou fraca. Não sei o que fazer com esta carta e com todas essas palavras que estou lendo nelas. Você poderia ter me preparado. Ou poderia não ter ido pra aquele maldito compromisso de trabalho lá na casa do caralho. Desculpa. Eu só sei falar palavrões quando as minhas palavras engasgam em meio a lagrimas. Mas que porra. Era pra você está aqui como sempre esteve!

Tínhamos compromissos. Você se mudaria de vez pro meu apê no final do ano e me ajudaria a escolher um carro mais econômico. Tínhamos planejado fazer um mochilão pelo mundo e iriamos a Paris no teu aniversário. Iriamos conhecer os lugares que serviram de cenários para gravação de alguns dos filmes de Woody Allen. Nós compramos as passagens, lembra? Temos os passaportes. E você só me diz nesta carta que, ficar comigo foi a melhor coisa que o teu destino fez com a tua vida. Você diz que é feliz com as minhas loucuras e que eu tenho tantos dramas que, você nem precisa se arriscar pela cidade em busca de outras mulheres. Eu sou tudo que você precisa para atravessar os dias e juntar histórias pra contar daqui a 90 anos bem vividos. Você diz que, eu sou incrível e nunca entendeu a razão de eu ter te dado mole àquela noite, naquela festa besta e cheia de amigos engraçados. Você diz que me amou de primeira. Eu era a morena de vestido preto insinuante, lábios vermelhos de batom pra enfeitar o riso e taça de vinho na mão. Eu era a melhor morena de todas as festas e, quem sabe, do universo inteiro, tanto que, todas as outras pessoas da sala, viraram móveis ambulantes, vasos chineses e essas coisas que ninguém repara. Você diz na carta que me amar não é uma prioridade, nem virtude e nem satisfação. Diz que me amar é como amar a si próprio com mais intensidade. Porque eu faço parte de você e se e não faço parte de você, cê não faz ideia do que seja você, então. Você diz na carta.

Cê diz na carta que, nunca escutou Beatles, aliás, só tinha ouvido falar de John Lennon, o cara que foi morto por um possível fã doentio,  e você só soube por causa de algum noticiário da Tevê ou manchete do jornal da manhã. E diz que se um dia você fosse morrer e encontrasse com ele onde quer que seja cê iria falar de mim pra ele. Dizer que fui eu quem te ensinou um bocado de coisas sobre as musicas dele e do Paul. E dizer que, por mim você amaria qualquer música que fosse capaz de delinear as bordas da nossa história.

E tudo que passa pela minha cabeça agora é que, por qual razão, eu não fui pra aquela maldita viajem contigo. Eu poderia ter feito birra ou ter me enfiado na tua mala junto com o perfume das tuas camisas, você não notaria. Sei que não. Mas aí. Você foi só e eu fiquei aqui pra contar a tua história. A nossa história. E, também, eu fiquei pra ouvir os pêsames e para aguentar o peso dos pêsames. Pra ser chamada de “coitada, perdeu o amor da vida dela”. Fiquei pra ajudar a tua mãe a seguir em frente. Fiquei pra parecer forte emocionalmente. Fiquei para servir de lembranças para as pessoas quando elas se lembrarem de você. Eu fiquei.

Mas um dia você disse pra mim, que nunca iria morrer. Que você era pra sempre e que era pra não esquentar a minha cabeça contigo. “vou está sempre aqui, amor”. Amor. O que é o amor agora, hein? Pra quê ele serve quando o nosso pilar sentimental vai literalmente a óbito. Dá pra gente se enterrar junto com todas aquelas flores, lágrimas familiares e amigas, recordações, caixão com tampa de vidro e um coração fraco que ficou sozinho no mundo dos corações? Dá?

Porque com você eu era desarmada. Eu era eu. Eu era você. Eu era a terra. A galáxia e todos esses planetas que giram lá de cima. Você morreu, mas quem está morta, sou eu. E agora?

Agora. Você diz no fim da carta.

Tô louco pra escapar contigo à Paris, amor.

Amor. Amor de novo.

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