Mas como você pode quase amar uma pessoa?

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Um dia, conversando com um amigo, eu falei pra ele sobre um cara que eu havia quase amado. Mas como você pode quase amar uma pessoa? Questionou o meu amigo. E se eu lembro bem, o cara, era daqueles com nuances de bom samaritano, era inteligente, engraçado, não era propriamente lindo, mas conquistava qualquer coração com o seu olhar de menino perdido na multidão de escolhas do tempo, o cara que me ensinou sobre Freud, recomendou-me o livro de Zygmunt Bauman, gostava de super heróis e usava sempre a desculpa de que era tudo uma questão de senso de irrealidade, como um universo paralelo ao qual não existia, mas, era expectador e eu sempre achei bonito isso. Ele não conhecia os Smiths e não achava que Beatles fossem tão interessantes assim, mas, tinha um posters do Charles Chaplin na parede do quarto. Aprendíamos um com o outro. Nunca tivemos tempo de conflitar por alguma insegurança implantada pelo ciúme. Não havia razões para brigas, desacordos ou falta de respeito. Ele também não curtia muito os filmes do Woody Allen, mas, permitiu que eu escolhesse três filmes entre os meus favoritos do autor para assistimos numa quarta à noite. E também me ajudou a quebrar alguns tabus e me mostrou que há uma infinidade de controvérsias para as minhas teorias sobre as relações humanas. Não éramos tão cúmplices porém, éramos um casal que quase deu certo. Não fossem algumas razões.

“Eu preciso muito deixar acontecer o momento da renovação, trocar de pele, mudar de cor. Tenho sentido necessidades do novo, não importa o quê, mais que seja novo, nem que sejam os problemas. Preciso deixar a casa vazia para receber a nova mobília. Fazer a faxina da mente, da alma, do corpo e do coração. Demolir as ruínas e construir qualquer coisa nova, quem sabe um castelo”. O trecho é do Caiu Fernando de Abreu, mas, o sentimento é infinitamente meu. Nós quase namoramos porque houve beijos, abraços de chegadas e partidas, carinho no cabelo, conchinha no sofá da sala e música a dois. Quase foi amor, não fosse a minha necessidade de algo mais que nunca encontrei naquele cara inteligente, interessante e livre. Às vezes a gente precisa desse envolvimento emocional com alguém para se autodescobrir: uma parte de mim gostaria muito de ter ficado mais de dez anos ouvindo as histórias sussurradas daquele cara no meu ouvido nas madrugadas da vida. Só que a outra parte de mim não achava suficiente passar a vida inteira presa num contador de histórias enquanto, por aí, há vários livros que posso ler e julgar a capa depois, como eu sempre fiz. Quase namoramos porque ele também percebeu que sexo incrível e bom humor adquirem prazo de validade se a pessoa que estão nos fornecendo tais prazeres, não for que a gente deseja que seja e, qualquer hora, ele teria que me ouvir resmungar uma infelicidade na relação e culpa-lo por nos prender tão cedo sem que houvesse uma razão para estarmos juntos. Ou poderia ser o contrário.

E a vida é questão de razão?

O meu quase amor e eu, estávamos em momentos diferentes da vida. Ansiávamos por outra coisa, por outra curva de sorriso quem sabe, por outro lugar pra ir, é como se estivéssemos indo a algum lugar e tivéssemos pegado a trilha errada, o que foi divertido no inicio, mas, as coisas foram intensificando-se, os amigos começaram a confraternizar e juntar as mesas para curtir o happy Hour em grupo, como se houvesse ali uma razão para brindes. Como se eu quisesse deixar acontecer e como se ele estivesse concordando com isso. A esquisitice é um estágio da paixão, a minha mãe me disse uma vez. E é justamente nessa fase que temos que para e pensar “é essa pessoa que quero pra mim?”. É com essa pessoa calada que quero viajar no réveillon? É com essa pessoa que fala pelos cotovelos que quero comemorar o meu dia dos namorados?

É “esta” a pessoa que “eu” quero pra mim? Como se o “eu, eu, eu” fosse mais imponente que as forças do universo, diga-se de passagem.

E a minha resposta pra minha pergunta foi Não. De frente para o espelho para que não houvesse expressões faciais de dúvidas aparentes. Fui cética comigo mesma do jeito que sou em todo fim de alguma coisa que tomo as rédeas e ordeno que pare. Eu queria que parássemos com os filmes, com as reuniões de amigos, com os planos para as datas comemorativas e com a ideia ininteligível de estar envolvida em “um quase relacionamento sério”. Na minha cabeça, o meu coração reagiria bem. No outro dia eu acordaria sensata, lavaria o rosto e tomaria o ônibus rumo a minha rotina de sempre sem a incógnita de “será que fiz merda”. Na minha mente tudo funcionaria perfeitamente bem. Ele não gritaria e nem perguntaria se foi por causa de outra pessoa e eu não surtaria por estar com alguém que desconfiava da minha fidelidade. Seria tranquilo. Palpável. E a coisa certa a se fazer.

O que os meus poetas não me contaram é que “coração não é tão simples quanto pensa. Nele cabe o que não cabe na despensa”. Eu comecei com um dialogo clichê de que precisávamos pensar um pouco e viver a nossa vida sem precisar passar na casa um do outro no meio da semana pra garantir que essa ligação ainda existe. As coisas precisam de uma boa pausa quando a vontade de nos vê para de ser um desejo e passa a ser uma obrigação. E nós não somos obrigados a sermos eminentes, nós somos adultos e seguiremos em frente como já é da nossa natureza humana, sabe? O meu discurso caótico, não foi tão difícil de deslizar dos meus lábios apesar dos soluços de um choro prematuro de “o que é que eu estou fazendo?”. Ele reagiu bem e até fez uma cara de misericórdia enquanto pedia a conta do restaurante. Falou que passaria na minha casa para devolver umas coisas e pegar os livros que me emprestou, mas, não seria necessariamente por enquanto. Ele poderia ter cuspido uns recalques na minha cara e ter saído igualmente machucado pelo termino de alguma coisa que a gente tinha. Poderia ter dito que me odiava e que não me recomenda nem para mim mesma. Mas não. Ele pagou a conta, beijou na minha testa e falou que estava atrasado e que era pra que eu ficasse bem, e ainda, a uns passos de distância da mesa na qual eu ainda estava, disse “Jê, qualquer coisa me liga, tá?”. Deu as costas e saiu desfilando por cima da minha carne seca, triunfando enquanto atravessava o portal e se transportava para o seu próprio mundo, atendendo o meu pedido de “vá embora antes que eu te ame, por favor,” e me deixando a sós com o meu almoço, a minha taça de vinho na metade e as minhas inseguranças de quem nunca soube o que quis, mas, é passageiro. Eu sei que é.

E respondendo a pergunta do meu amigo, eu disse olhando pra dentro de mim mesma: “Eu QUASE amei aquele cara porque, ele foi um dos inúmeros que me apaixonei pela vida e por isso chorei ao terminar, mas, não amei de verdade”.

Aliás, eu acho que Caetano resume melhor: “Quando a gente gosta, é claro que a gente cuida”.

Eu nunca cuidei daquele cara.

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