Ó, eu tô caindo fora, amor…

Escreveria mil livros sobre a maneira que fiquei após nós dois. Após os nossos hálitos de bom dia, boa tarde, boa noite e boa despedida, meu amor. O nosso beijo de adeus pode ter ficado preso nas minhas vontades de fugir antes de tudo se transformar drasticamente em sentimento, antes que a sua cabeça virasse a trezentos-e-e-sessenta-graus jurando que não arredaria daqui do meu lado nem se te pagassem. Daria pra catalisar os teus gestos, o caminho que as tuas mãos faziam pra aliviar a tensão do meu corpo cansado, das minhas paranoias que de tal malditas pararam de ser levadas a sério. Eu sinto muito por tudo, amor.

Da ultima vez que sofri por amor jurei com os pés juntos que nunca mais deixaria alguém ficar por tanto tempo, daria um prazo que expiraria assim que uma das partes começasse a ver o colorido das coisas, assim que a vontade de se ver parasse de ser uma obrigação cotidiana de casais sem futuro e se tornasse um desejo eminente, desses que estremecem cada terminação nervosa dos nossos neurônios. E de toda essa puta saudade que eu sinto, que você sente, que as paredes do quarto e as ruas estreitas que separam o teu lado da cidade do meu consigam sentir, a nossa falta gritando alto aqui dentro do peito, a saudade cobrando todas as parcelas não pagas de presença, estamos no vermelho com nós dois. Mas a loucura é tanta que nem pra pedir desculpas o nosso ego serve. Sabe. Um desculpa por ter invadido a tua vida dessa forma como quem não quer nada e saiu arrasando tudo, desculpa pelos palavrões, pela insensatez, por ter destruído os projetos pensados juntos, por ter dito, ó, eu tô caindo fora, amor. Desculpa por a gente ter ser deixado, pelo abandono de uma coisa tão esquisitamente bonita que a gente tinha.

Mas de certa forma, a gente não se abandonou, não se perdeu e nem se deixou, nós somente chegamos naquela fase que a gente avalia se é viável dar o coração a abater ou não. Se estamos indo bem ou se nunca saímos do mesmo lugar, ou se tudo nunca passou de um ciclo, de uma bola de neve e expectativas esperançosas de quem acha que pode mudar o jeito de o outro ser. E talvez fosse isso que sempre me encantava na tua história, a maneira com a qual você resolvia os problemas, cuidava-te ti mesmo, arrancava as próprias dores com um único sorriso, chorava pra dentro com a testa franzida de quem nunca aprendeu a derramar lágrimas por ninguém na vida. Como se mágoa fosse um tipo de pecado que você nunca deixaria que acontecesse contigo, sempre com a tão retornável expressão de que tudo passa, até eu posso passar. E quanta vez não me flagrou destruindo toda essa tua perfeição com as minhas próprias emoções, cansada de viver na linha imaginaria de que estar tudo bem, que tudo daria super certo no final das contas e que não precisaria sair na noite com as amigas e pronunciar a frase “sabe como é, eu super superei esse amor”, porque ninguém supera ninguém. Por que amores quase nunca são superáveis, alguns até são mais leves ou mais engraçados ou mais românticos ou mais raivosos que outros. A gente até pensa que não tem estrutura sentimental pra esse tipo de coisa e que pode ser passageiro, durar três dias, três meses ou três intermináveis anos. Nunca importa a duração das coisas, o que conta é a maneira que você a viveu, o nível de profundidade que você se atirou e se você conseguiu se sair inteira: alma-sorriso e coração. Porque amor é assim, a gente se interessa, descobre o gosto do beijo e a maciez da mão. Daí se joga do alto da torre emocional pra tentar escalar junto depois. Rezando para que seja reciproco e intenso. Rezando para que a vida seja resiliente com a nossa história. Dessas histórias capazes de preencher muitas folhas em brancos dos livros que a gente poderia escrever das nossas vidas, mas não foi o caso.

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