Longe de Casa

Longe de casa. Há mais de uma semana. Milhas e milhas distante do meu amor.

Escuto essa do Blitz no rádio do carro a caminho de qualquer lugar que não para onde eu queria mesmo voltar. 

 Viver longe de casa, digo, da família, da mãezinha pequena e risível, do quarto de irmãs com camas de solteiros e pôsteres de 2004 na parede, guarda roupas apertado, blusinhas frente única, revista de astrologia da Capricho e uma interminável pilha de livros amarelados e cartas endereçadas a alguém e nunca entregues a ninguém, não é fácil. 

 Primeiro que a pessoa que inventou que a gente precisa sair da casas dos pais pra aprender a usar as asas, nunca na vida foi uma adolescente chatinha que colecionava fotos de Leonardo DiCaprio. Quem inventou de crescer nunca dormiu no sofá e acordou com a mesma mãezinha pequena e risível praguejando com o dedo em riste, por estar até altas horas vendo TV. 

 Viver longe de casa é aprender que nem só de congelados e fast food que se vive a fome, mas, claro, há uma época em que essa escolha gastronômica realmente satisfaz. Mas aqui, encostando-se aos t-r-i-n-t-a isso não nos sustentam tão bem. 

 Longe de casa a gente chora no banho também. Rói as unhas, mastiga o esmalte vermelho escarlate, olha pra conta de luz, finge demência, olha de novo e grita “mas porque Deus”. Pensa em diminuir 20 minutos dos 47 que demora no banho. E acaba não cumprindo a promessa. 

 Longe de casa não existe um colo de mãe físico na hora que a vida chutar sete a um. Você liga interurbano, ouve a vozinha bonita da mame de longe, conta as decisões importantes, as últimas cagadas, chora as pitanga, ouve uma penca de conselhos maduros e desliga. 

 Numa conversa física com toda certeza ouviria uns sermões acompanhados de voce-precisa-tomar-um-rumo-na-tua-vida. Mas não. É só sua mãe incorporando Chico Buarque e dizendo que “vai passar”. 

 Longe de casa o trabalho é mais árduo. Louça não sabe se lavar sozinha. A roupa então, vixe, eu nem te conto. 

 Longe de casa a vida acadêmica para de ser uma obrigação e se torna uma meta. Como num jogo de vídeo game que você precisa ter foco para passar de fase. Em minha defesa, nunca na vida joguei vídeo game. 

 Longe de casa o tempo passa mais rápido. Com o tempo mais responsabilidades. Você precisa escolher entre casar ou iniciar uma pós, um mestrado, MBA, ou até uma simples graduação mesmo. 

 Quando sozinhas, sem eira e nem beira, sem mãe ligando a cada quarto de hora pra saber se vai chegar a casa as dez como o combinado, a gente se perde. 

 Mas, ó, é aí que a gente se ganha. Mesmo com todo o drama vivido dia após dia em busca de um futuro teu, com choro no banho, contas e mais contas, dead line e cerveja com as amigas adiadas pra uma próxima. Quem sabe um nunca. Vem à pessoa de quem você herdou a garra, a coragem e a maneira de rir como se tivesse enfartando, ela vem e diz que sente admiração. Orgulho. Minha cria cresceu mesmo. Custa de acreditar, mas, a gente realmente cresce, amadurece, rasga os pôsteres de Leonardo DiCaprio e cola na nossa vida a figura de um amor real. 

 Viver longe de casa é aprender que você só se conhece quando convive com si mesma. Conhece-se quando se enxerga de cara limpa nas situações difíceis e sai delas com a sua própria força e coragem. 

 Viver longe de casa não é estar a dois passos do paraíso, mas, sim, está cara a cara com o seu verdadeiro eu. 

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