Sou tua chegada, mas também partida

No amor todo nós somos um mundo inteiro de chegadas e mais um milhão de partidas inesperadas. E foi com esse discurso brega que você terminou de gostar de mim. Meu coração parou de bater no exato momento em que os teus calcanhares ridículos foram em direção à porta, assim como quem corre de uma dívida inafiançável. Os outros momentos seguintes sobrevivi somente com a alma, latente, desesperada, desamparada, aprisionada. Socorro.

Te mandei ir e você foi, simplesmente, assim como quem esqueceu de pegar pão quentinho na padaria. Conversa pouca, palavras múltiplas, todas elas afiadas e cortantes. Minha vida sangrou por meses, como uma hemorragia interna que a gente adquire num acidente grave. Meu mundo enguiçou no seu e tudo explodiu bem no meio das minhas risadas tortas. Você foi, e tudo bem. Serio mesmo!

E vejo lá fora o vento beijando as folhas verdinhas das arvores, a maneira com a qual se entendem tão perfeitamente, como numa dança de salão envolvente. E éramos assim. Você arvore e eu o vento. Você sempre plantadíssimo da silva na sua existência. E eu sempre a procurar meu lugar por todos os mundos. Você a Estatua e eu a liberdade. Mas que de certa forma cabíamos direitinho numa cama com um edredom quentinho no mês de agosto.

O brabo foi quando eu decidi que não arredaria o pé e nem muito menos o coração do seu mundo porcamente mal frequentado por almas bizarras, dessas que riem desesperada na balada a procura do príncipe bêbado perfeito para fazer-lhe de imbecil. Aí eu cheguei. Abri as portas e janelas para arejar o ambiente, te belisquei na nuca, puxei duas ou três risadas com os meus palavrões. Me instalei em ti. Viramos casa, coração e ombro amigo. Como daquela vez que você chorou frustrado no banheiro, com os olhos feito brasa de quem se decepciona com si mesmo pelo caminho. Está tudo bem, amor, eu disse.

E fomos trilhando em dupla. Dois mundos e a mesma decisão, dois pontos, a de ficar junto sempre, em qualquer situação bizarra ou maravilhosa. Eu aqui. Tu aqui. Nos dois num único solo, beirando a loucura de tão impossível. Compartilhamos cicatrizes, realizações, desastres, idas ao médico, gripe, maratona de Netflix e o nosso amor.

Mas como num castelo de areia, o seu medo desabou o meu mundo e o teu. Trazendo à tona velhas incertezas frias, magoas e também decepção, após tanto tempo. Da mesma forma que fui sua linha de chegada, sou agora seu ponto de partida para outros mundos. E tudo bem também.

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