Eu Hoje Vou Pro Lado de Lá – Livro Online

 

CAPITULO 1

Era a primeira vez em tempos que eu caminhava pelo mundo sem você. As pessoas tendem a achar que estou sem metade de mim e, talvez, elas estejam mesmo certas. Hoje eu acordei meio liberdade e meio dependência, senti uma vontade insana de acender um cigarro e sentar em cima da pia da cozinha enquanto pensava em ti. Eu não fumo, você dizia que cigarros causam câncer e amarela o sorriso da gente. Mas não foi o que você fez comigo? Apenas tomei um café forte e resolvi recapitular as coisas, ou capitular. Essa é uma forma de auto tortura que não recomendo para ninguém, nem mesmo para você.

Bendito e maldito seja o dia em que o meu olhar cruzou com o teu pela primeira vez, você belo e gentil, eu irônica e simpática. Ambos solitários e desiludidos. Você portava uma garganta cheia de palavras que eu desejava ouvir, as quais até agora ainda ecoam nos meus tímpanos. Foram passando dias e a minha solidão foi se interessando pela tua. As minhas canções foram parar no teu play list, os teus livros na minha estante, as minhas calcinhas na tua gaveta de meias, a tua escova de dente fazendo companhia para a minha no armário do banheiro, eu chegava e te cobria de beijos intensos de como-foi-o-teu-dia, e você contava um pouco do caos da tua rotina, eu sorria e você me agarrava pela cintura como quem conduz uma bailarina pra dança. A nossa sintonia sempre foi o ponto alto e a gota água da nossa relação. Eu sabia a principio que o nosso amor não era desses de cinema, eu nem me permitia planejar muito a minha vida contigo. Uma vez uma amiga me falou que quando a gente ama alguém de fato, nós projetamos os nossos planos maiores com a pessoa respirando em cada entrelinha da história. Talvez, eu não soubesse colocar o meu lado humano pra funcionar, as minhas emoções são sempre quem decidem por mim, eu deixo a minha vida por conta da minha imaginação e sigo te amando na medida em que a minha vida consiga te absorver e me caber quase na mesma escala e período de contribuição sentimental.

Eu não tenho paciência para histórias de amor, eu costumo pular as cenas do sorvete a dois em qualquer pracinha brega da cidade. Eu mudo de canal quando me dou conta que estou sendo boba e peço pro universo mandar a próxima parte. Não sou adepta aos joguinhos de conquistas e não sigo as regras básicas para construir um relacionamento numa base solida e consistente igual a todo mundo. Vou direto pro abraço, dali pro beijo, taças de vinho, algumas perguntas pessoais, mais beijos, sexo e adeus. Espero que tenha sido bom pra você também, não precisa me ligar amanhã. A minha discrepância para o amor é inadmissível para quem é sensível de alma. Sou louca pela vida, mas, não estou nem aí pra essa droga de seguir roteiro. Mas contigo foi diferente.

Com você, eu fiz questão de tomar o sorvete enquanto aguardava o horário do filme no cinema, jantei num desses restaurantes chatos que só se veem casais que parecem que estão juntos há 200 anos mal vividos, esperei pelo beijo de despedida na porta de casa e madruguei pensando no brilho do teu olho e o que eu falaria quando você fosse me ligar de manhã. Será que você ligaria? Será que eu falo alô ou parto logo pro eu-te-amo? Não sabia como agir ou como me conter diante de mim mesma. Eu que sempre fui o meu próprio pilar sentimental e conselheira amorosa. Eu que só enxergava as partes que fossem me trazer ótimos benefícios futuros. A administradora do meu próprio coração e ego. Estava eu ansiando por uma aparição tua no meio da tarde. Um convite para almoçar naquele restaurante que você disse que servia uma sobremesa dos deuses ou, simplesmente, uma frase frouxa de como-é-bom-estar-do-teu-lado. Você foi o primeiro homem que me fez ficar na plateia assistindo o circo que se transformaria na minha vida, aplaudi de pé com todos os meus sorrisos guardados para o dia em que fosse me senti realmente feliz. Mas a gente nunca sabe o que é felicidade e é isso que liquida a gente.

Por você eu deixei de ser a mulher mais egoísta que o mundo já conheceu, atirei-me de cabeça nos teus oceanos de momentos bons, fui sem reservas e sem medos e sem essas coisas que eu invento para não amar ninguém.

Doce inocência da minha parte.

Decidi então que, eu ficaria por você, mas, na real, eu fiquei por mim mesma. Desde que me conheço por mulher, eu somente faço coisas que me favoreçam até quando é para ajudar alguém. Não sou uma pessoa tão legal como você gostaria que eu fosse, mas, eu nunca te privei de conhecer e reconhecer esse lado B do meu caráter.

E foi isso que contribuiu para o meu sonho de materializar a minha vida no meio da tua.

Uma vez, eu assisti a uma palestra em que, um poeta, lá pelas tantas dos devaneios,  contou que o amor é feito de dor e, por essa razão, é que fazem rimas. A gente só ama quando percebe que está doendo, a felicidade é apenas um placebo da paixão e que serve pra gente fingir que é otimista e que nem está doendo tanto assim. Mas está. Talvez já estivesse doendo desde antes de conhecer você. Eu sempre soube que não seria imune a isso tudo pra sempre, eu ouvia as pessoas contando as suas histórias de amor e sofrimento e sempre achei tudo tão patético. E isso pode até soar como um discurso ridículo em defesa do meu próprio coração. Mas, olhe só, depois que eu descobri onde que mora o amor, numa casa grande e perfumada e iluminada e musicalizada, lá no andar de cima, em qualquer quarto com paredes firmes e cama bagunçada, há anos, reside uma dor, uma magoa, um lugar escuro que a gente vai depois que a casa bonita fica mal assombrada e a gente precisa fugir o mais rápido que se  possa, é lá que nos instalamos, colocamos as nossas malas no chão e enchemos os armários com as nossas cores cinzas de quem nunca mais quer ouvir falar de cores, flores e amores. Eu que já fui o batente da porta de entrada, a própria casa ampla e todas aquelas coisas que faziam dela um lugar desses perfeitos pra viver, agora, eu sou aquele quarto escuro e intransitável. E não estou com o mínimo de animo para visitas, a não ser que seja você. Eu hoje vou pro lado de lá, em algum lugar que não exista ninguém além de mim e o amor impróprio que eu sinto por você.

Continua…

 

CAPITULO II

 

Estou com uma impressão tão pesada e sórdida do amor que eu mal consigo respirar ao lado de pessoas felizes. Você sabe, a tal da felicidade placebo. Estou apática. Ainda ontem eu me flagrei odiando a chuva pela janela, odiando os carros que buzinavam na rua, odiando o teto que cobre a minha casa, odiando o elevador do prédio, odiando o chão que eu sou obrigada a pisar pra perceber que se eu tropeçar no meu próximo passo, você não estará lá pra me servir de amparo e suporte e pra me ajudar a alçar voos daqui pra qualquer emoção impessoal que você tinha o dom de despertar em mim. Não que você trouxesse toda essa paz mundial para a minha vida, aliás, paz era a única sensação que você não era capaz de me fazer sentir. Eu quase consigo me perder de mim mesma se penso muito no brilho do teu olho e nas palavras que dissemos para dar aDeus aos nossos momentos juntos numa discursão há duas semanas antes dom fim propriamente dito. Cuspimos ofensas, abrimos feridas, atropelamos planos futuros, derrubamos a estima um do outro e saímos porta fora sem ao menos nos lembrar de catar a nossa dignidade que ficou espalhada pelo chão e oxigênio da sala.

Nunca imaginei que perder um amor fosse o mesmo que perder alguém num acidente de carro rumo a lugar nenhum. Mas para ser realista, eu preferiria que um de nós dois tivesse morrido naquela noite, e preferiria que tivesse sido você. Sendo assim, o único peso que eu carregaria no coração seria os teus sessenta e oito quilos e mais o caixão fúnebre e as flores. Eu me odeio por pensar assim. Eu me odeio por pensar. Odeio tudo que me faça lembrar-se de você. Odeio o meu corpo por ter sido totalmente teu um dia. Odeio os meus lábios por terem se encostado à tua nuca e por ter dito cada coisa insana na hora que a cabeça romântica atua. Aliás, pensando melhor, eu quem deveria ter morrido. E se pensar, eu já estou morta. Sou um zumbi que se arrasta de casa para o trabalho e do trabalho para mim mesma, eu ainda penso que eu existo. Eu odeio estar existindo. Mas é uma coisa minha quase nada a ver contigo e é isso que mais dói.

Eu nunca sofri de insônia, ansiedade ou coisa do tipo, mas, eu tenho passado as minhas madrugadas, o meu horário do almoço e qualquer tempo livre que tenho durante a vida a esperar algum movimento teu. Vez em quando eu olho pro celular e lembro que deletei o teu numero, o qual eu tenho gravado na memoria, na pele e até no hálito, reinicio o aparelho, tiro e coloco o chip, ligo para operadora pra saber se está tudo certo com o meu plano mensal, pergunto ao atendente se ele sabe alguma coisa sobre o seu paradeiro e peço pra ele te avisar que estou escandalosamente bem, ele não entende e me transfere para outro setor, desligo e continuo a odiar o mundo. Fico esperando você dizer que está morrendo também e se por acaso eu tenho Rivotril sobrando pra dividir com você. Os ansiolíticos não são mais tão engraçados, meu bem, eu parei de tomar vinho e de acender as luzes do quarto. Eu tenho medo do espelho, inclusive, estou cogitando em remover todos os espelhos que há no meu apartamento e até já bolei um plano para quebrar o retrovisor do meu carro para que eu possa andar por aí sem enxergar muita coisa pela frente. Assim eu posso morrer por inteiro, eu tenho para mim que esse é o único jeito de tirar as tuas marcas do meu corpo. E tudo pode soar como um drama. Essa é a minha chance de fazer drama.

E até pessimista encarar as coisas por esse ângulo, mas, é que não tem mais nada de ótimo em aceitar que essa foi a nossa fase final. E pensar que fui eu quem colocou o ponto final no meio das tuas reticencias. Você me conhece, eu não aguento viver somente de refrões quando eu posso parar para ouvir uma trilha sonora inteira que venha a delinear as bordas da minha tão infeliz cara de cansaço. Daqui de dentro de mim, eu consigo te escutar contando para as pessoas que dessa vez a gente se perdeu pra sempre. Amor, a gente se perdeu desde o dia em que nos encontramos. Lembro-me do dia como fosse uma catástrofe histórica ou um divisor de águas poluídas na minha vida.

Voltando um pouco no tempo, há uns dois anos atrás pra ser um pouco exata, eu percebo a razão pela qual me deixe levar por você. Nunca fui do tipo de mulher que carrega uma lista na bolsa pra ir destacando a personalidade dos amores futuros em ordem seletiva e até um pouco patética. Naquele tempo, eu só precisava de alguém que fosse capaz de me oferecer um pouco de abrigo, piadas inteligentes e boas noites de sexo. Pulei a parte em que a gente pesquisa se é viável dar o coração a abater ou não. Passei direto pela plataforma que obriga encaixar alguém dentro das expectativas de vida. Você era um homem. Repare que eu falo era quando me refiro a ti, é que eu gosto de encarar como se você tivesse dado cabo de si mesmo quando você obedeceu às ordens da minha garganta feminina pedindo para que saísse da minha frente por toda a eternidade. Como fosse eu uma mulher surpreendente. Coisa que nunca fui. E, talvez, é por isso que quis viver do teu lado por esse tempo. Eu só pedia ao cosmo que me trouxesse alguém com uma risada bonita, um bom gosto para músicas e bebidas, um emprego que o ocupasse durante o dia, uma família que não se intrometesse nas escolhas idiotas que você faria na vida, ficar comigo, por exemplo. E você, como um bom samaritano que nunca foi, coube inteiro e perfeitamente dentro das minhas alucinações mórbidas e irrefragáveis. Vesti você em mim e pensei, “opa, o meu numero”. Só que naquele tempo eu estava de dieta e nem me toquei que com o passar dos dias o meu manequim sofreria alterações consideráveis e a loja da qual eu te adquiri, não se fazem trocas e nem muito menos devoluções de produtos capazes de estremecer cada terminação nervosa dos meus neurônios. Tudo bem, eu fiquei contigo, mas, não imaginava que estaria sozinha nessa história toda, por isso resolvi sentar aqui e escrever sobre. Porque escrever é uma maneira minha de falar comigo mesma, eu sempre odiei ouvir sermões vindos dos outros, você sabe. Aqui tudo é por minha conta.

 

CAPITULO III

 

A Tevê ligada num canal qualquer e no modo mudo. Cazuza cantarola “O teu amor é uma mentira que a minha vaidade quer”, nas caixinhas de som do meu computador. As paredes parecem que estão se fechando, como se uma estivesse indo de encontro à outra. Abafando os meus gritos presos na garganta, os teus sorrisos congelados em dois porta-retratos do criado mudo. A janela fechada e a angustia imperando aqui dentro. O meu apartamento vai colidir comigo dentro e eu só consigo pensar em você.

Eu não sei como choram as outras pessoas, eu choro pra dentro, retraindo, juntando os cacos, varrendo o mundo com os olhos culpados de quem nunca lutou para que as coisas tivessem um formato sentimentalmente concreto. Eu deixo as lágrimas escorrerem pelas veias e seguir direto pro coração, como se fossem oxigenar alguma coisa morta e indefesa abandonada em cima do sofá com o controle remoto na mão, assistindo a vida passar devagar.

Talvez Cazuza esteja mesmo certo quando diz que você nem arrumou a cama, parece que fugiu de casa. Nem me preparou psicologicamente, fisicamente, quimicamente e emocionalmente. Mesmo que uma parte “Blue Jasmine” de mim já desconfiasse dessa sua partida, eu sempre quis estar errada, entende? E agora você até pode contratar alguém pra me beliscar e me provar que não estou sonhando e, ó, aproveita também e deixa o meu corpo em qualquer jazigo do mundo. Que nem pra adubo esse defunto que me tornei, serve.

Quando aquele final de semana longuíssimo da sua partida deu entrada numa segunda-feira cinza, eu tive que acordar após nunca ter dormindo na vida e obrigar os meus instintos a trabalhar o dia inteiro, de uma forma um pouco mecânica. Eu só me lembro de primeira xícara de café, da voz longínqua do meu chefe cobrando os relatórios, da minha amiga da faculdade perguntando se eu estava bem, do meu professor chamando o meu nome na lista de presença e de você saindo por aquela porta. Como quem sai pra uma viajem sem volta. Eu estática e você enérgico. Você confessando razões e dizendo que manda a tua irmã buscar o resto das tuas coisas depois. Eu estática. Você meio nervoso e muito cruel. Como diz Carrie Bradshaw, em Sexy and The City, você é um homem mau. Porque somente homens maus fazem esse tipo de coisa com as suas mulheres. Mas nunca achei que essa coisa toda fosse acontecer também comigo, o cinema não me alertou que estavam fazendo roteiro de filme com as minhas histórias.

Às vezes, eu consigo ficar sem pensar em você e é sempre quando estou fazendo algo que me exija total foco, coisa de 20 minutos. E um dia sem você, tem 200 horas a mais que 24h. Eu choro o tempo todo, por dentro, claro. Eu fico pensando onde será que você anda agora. Será que sofrendo enquanto lê as minhas mensagens? Será que bebendo feito um louco nos bares sujos da cidade? Ou com a outra mulher? A outra mulher com cores e sorrisos deferíveis do meu? Procurando um novo apê pra alugar, com medo que eu invada o teu com a minha chave extra? Eu te aconselho somente a trocar a fechadura e fique tranquilo que não vou te invadir não. A invasão sempre uma característica mais tua do que minha e se alguém tem que se trancar, acredite que, sou eu. Não por você, mas, por mim mesma.

E aí, você já contou pra tua mãe? Em qual tom de deboche ela disse “eu bem que te avisei, filho”, hein?

Contou para os teus amigos que eu não disse uma frase pra impedir que você fosse pro raio que o parta? Eles já disseram o clichê “eu sabia que ela não servia pra você, cara”, entre arrotos de cerveja barata, não é?

E você contou também que foi por causa de outra mulher? É substancial essa informação para que te santifiquem de uma vez por todas e, quem sabe, o Papa não mande um mandado de beatificação direto do vaticano pra você. Eu acho digno. De pena.

Mas os meus discursos nunca te magoaram e, por essa razão, é que eu desabei calada. Como quem toma um tiro direto no coração e perde os sentidos. Foi indoor e até meio inacreditável. Por isso que congelei e consenti com os olhos que você deveria deixar nós dois num maldito sábado à noite por causa de uma biscate, eu sei que você não vai gostar de me ouvir chamá-la assim. Mas quem engravida a ex-namorada por acidente? Pelo jeito, é só você que pode responder a minha pergunta.

E falar em ex. Eu dou conta agora que sou ela. Agora sou eu quem vai se chamar “Daniel” na agenda do teu celular, ou será “Marcos”? Eu prefiro “a mulher que matei”, este cairia bem no meu novo estilo de vida, você não acha?

O estranho de tudo, é que eu já sofri tantas vezes. Por tantos caras de risadas tortas e pares de sapatos que estraguei que, até Deus, poderia achar essa minha dor uma demonstração patética de insuficiência nas relações amorosas. Estou até pensando em ir a um circo e pedi para que o palhaço deboche da minha cara e me aponte na arquibancada que, é para que eu ouça o quão ridícula você me tornou. Às vezes, eu mesma faço isso. Afundo-me na banheira cantarolando alguma do Phill Veras e depois dou umas risadas nervosas de mim mesma, em auto piedade, transbordando dor e dó. Sem choro ao ar livre. Pedindo misericórdia e ajuda celeste pra vencer mais um dia com você longe do meu corpo e impregnado na minha cabeça. Ficou tudo fora do lugar. Café sem açúcar, dança sem par.

O nosso amor a gente inventa pra se distrair e quando acaba, a gente pensa que, ele nunca existiu. Cazuza finaliza.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s